segunda-feira, 20 de junho de 2011

O AMOR e o Partido das Pessoas Para as Quais é Melhor Deixar Quieto - PPMDQ

"Amor? Talvez com o tempo, conhecendo-nos pior." 
Ennio Flaiano



Recentemente eu fui a um casamento...

Me corrijam se eu estiver falando besteira - ou pelo menos desconsiderem.... - mas pela zilionésima vez vou falar em Amor aqui... ou "mais ou menos em Amor"... em relacionamentos, enfim, nessa zona que sempre está tumultuando de forma positiva ou negativa a nossa vida, nem se que seja com o tumulto que a ausência de tumulto gera.

O assunto vem a calhar não apenas porque o dias dos namorados passou agorinha, mas porque a busca incessante pelo amor ou pela solução e resposta que ele deveria representar em nossas vidas é o tema mais recorrente que existe no mundo! É uma coisa impressionante a quantidade de livros e filmes sobre isso, mas ainda maaaais impressionante é o tanto que isto faz parte da rotina das pessoas. Quem não conhece ninguém que esteja hoje, neste instante, infeliz por causa de um relacionamento frustrado, um amor não correspondido, uma decepção amorosa?! Eu desafio!!!

O que me fez começar o post falando do casamento lá que eu fui é uma coisa bem interessante que o padre falou... ele disse que está escrito na Gênese, na Bíblia assim:  "... não é bom que o homem fique só, far-lhe-ei uma adjutora que lhe seja idônea." E disse mais! Falou que até então, Deus estava satisfeito com tudo o que tinha feito e que após concluir suas criações "viu Deus que era BOM"... mas quando criou o homem foi diferente porque pela primeira Ele sentiu que não estava assim... uma Brastemp! Não. Como está, não está bom.  NÃO É BOM QUE O HOMEM FIQUE SÓ.

Assim, na versão bíblica, por não ser bom que o homem ficasse só, Deus criou a mulher, uma companheira que lhe fosse idônea, e na qual ele pudesse se ver refletido (de certa forma), porque não é assim que somos nós? Buscamos identificação uns nos outros? Sabendo disso, antes que o próprio homem soubesse, claro - pois como poderia saber que buscava identificação sem conhecer ainda a rejeição?! - Abba criou uma mulher (Eva) para um homem (Adão) que lhe era perfeitamente idônea... e que não o rejeitaria, mas seria sua adjutora.

Foi com o surgimento da produção em larga escala de Evas e Adãos, penso eu, que a coisa desandou... pois como saber qual Eva é idônea para cada Adão e vice-versa? Como identificarmos uns nos outros os nossos adjutores? E foi aí que começou a rejeição e que arruinamos a coisa toda pois, porquanto, embora não seja bom que o homem fique só, o homem (e aqui leia-se o ser humano) nunca foi tão só como é hoje.


A Bíblia diz que o homem deixaria seu pai e sua mãe (e eu afirmo todas essas coisas da Bíblia porque estou lendo a Gênese on line aqui! Nào sou conhecedora... sou adepta da idéia de que os mandamentos de Abba estão gravados na nossa Consciência... mas a Bíblia também é um livro histórico e esclarece muito das nossas tradiçoes culturais! Fui pesquisar no Google as palavras do padre! hahahahahaha) e apegar-se-ia à sua mulher formando com ela uma só carne. Quer dizer... isso não é tão original assim, não é? Platão também veio com essa história das metades da laranja e da busca pelo inteiro - já falei sobre isso aqui discutindo as teses de Gikovate - e até hoje vivemos esse dilema de que precisamos encontrar nossa alma gêmea...

Entãaaao! Vendo a frustração de milhares, milhões... os psicoterapeutas erguem uma nova bandeira e dizem: "Nãaaaoooo! Nós somos inteiros! Não existe isso de "ser uma carne" com ninguém! Se ame, se complete, se valorize, se respeite, se dê prazer!" Vem Gikovate e tantos outros com teses como o "+Amor" afirmando que podemos, nós pessoas, ser 2 inteiros nos relacionando em si, cada um entra com sua própria carne.

Bom, não li os outros autores... mas li Gikovate e escrevi 4 posts enquanto fazia isso para,  no final das contas, chegar a duas conclusões:

1) Beleza, qual a graça de ser um inteiro com um buraco no peito? Porque é de "buraco no peito" que Gikovate chama essa sensação de vazio que a ausência de relacionamento romântico causa. E ele reconhece que essa sensação de vazio só cessa quando estamos com alguém, quando, pelo menos por enquanto, o infiliz do buraco se fecha! Mas ele diz: aprenda a viver com seu buraco que você vai ser inteiro (Acuma?). E eu pergunto: não seria outra forma de dizer: seja uma metade conformada? Um inteiro com um buraco é mais negócio do que uma metade? Depende do tamanho do buraco? Como medí-lo? Existem pessoas que são menos "metades" do que outras, como existem buracos menores, então? Resumindo...? Bobagem!!! É só a conclusão óbvia e sensata do "não se mate porque você está sozinho, aprenda a se fazer companhia e tente não ser dependente de ninguém emocionalmente o melhor que puder... outras pessoas já sobreviveram, sabem?". Conselho mais antigo do mundo. Não é a solução para a busca pelo Amor. Não se trata de ser ou deixar de ser metade. Você só "pára" de se considerar uma metade pra se auto-intitular um inteiro com um buraco. Mega-sena!!!

2) Teorias são inúteis na hora do "pega pra capar". Pelo menos no campo emocional, TODAS ELAS!!! Sim. Eu disse TODAS!!! Na hora em que a pessoa está sofrendo, está desesperada, está irada, irritada, angustiada, exultante, alegre, enfim... fora de seu eixo de raciocínio, ela não irá se importar com nenhuma teoria. Simples assim. Seus atos podem aleatoriamente alimentar estatísticas de uma ou outra corrente, mas não são ações calculadas... Eu não estou dizendo, entendam, que as teorias não têm fundamento fático, o que eu estou dizendo é que os fatos não têm fundamento teórico... coisa bem diferente!!! É um caso clássico em que a recíproca não é verdadeira. Case closed. Usamos os fatos para formular as teorias. Maaaaaaas, quando agimos passionalmente, usamos as emoções e não a razão, de modo que a teoria pode até ser invocada lá num cantinho do cérebro, mas rapidamente a sufocamos se ela vai de encontro aos nossos anseios momentâneos. Observem que estou falando de ações passionais!!! E também, obviamente, do tal conceito de "homem médio". Isto é, aquele que sabe que deve aprender a se amar e se respeitar e sentir-se inteiro independentemente de encontrar ou não sua alma gêmea, mas que quando se apaixona tenta se convencer desesperadamente que "dessa vez acertou" e que  "com ele/ela é diferente" e que finalmente a felicidade poderá ser duradoura. Às favas com as teorias que querem arruinar sua felicidade! Elas não se aplicam pra esse caso específico que é uma exceção! Vejam bem: a maioria dos casos o é (uma exceção, obviamente, uma exceção única e exclusivíssima que se repete com praticamente todo mundo e quase sempre que cada pessoa se apaixona - de novo!)...

"Continuamente nascem os fatos que contradizem a teoria." 
Carlo Dossi

Dito isso, eu fico com Platão, com a Bíblia e com os românticos inveterados que se poupam do trabalho de discutir se a pessoa é "inteira" ou em que consiste essa tal inteireza para encarar o problema e a solução: a busca incessante e alucinante pelo preenchimento desse vazio... dessa saudade do que não se consegue rotular... pela sensação de alívio (puro alivio) que sentimos quando não estamos romanticamente sós.

Se é ridículo ou absurdo? Sei lá! Mas é fato: a maior parte das pessoas, por mais que seja bem amada pelos familiares e pelos amigos, por mais que tenha amor próprio, sente falta de um amor romântico... ou não tão romântico - talvez um romance selvagem? hahahahaha - Tá! Um relacionamento amoroso! Nem que seja fictício, platônico, lunático, impossível, improvável...

Vejam bem! Vinícius de Moraes não se limitou a cantar que "fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho"... ele foi além e afirmou mesmo que "não há mal pior do que a dispensa, mesmo amor que não compensa é melhor que a solidão". E não se restringiu a cantar... ele buscou a tampa da panela, buscou encontrar a cura do vazio, da saudade... mas parece que o que se costuma achar pelas prateleiras da vida são apenas medicamentos paleativos... não a cura. O poetinha tentou! Tentou meeeeesmo... Com afinco! Nove casamentos... nove "agooooora vai"... e foi, e depois "foi fondo". Acabou. Mas é como ele mesmo disse: "Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão". Pior é não poder perdoar-se por não tentar tanto quanto baste, senão com tantos(as) quantos(as) bastem, mas tantas vezes quantas necessárias com aquela pessoa que elegermos. É como disse Camões: "o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é cuidar que se ganha em se perder..."

Nem vou começar a botar música falando de amor aqui... porque aí não seria um blog, seria um e-book! Vamos de Chiclete com Banana (eu vou voar atrás desse amor, vou encontrar seja onde for) a Elvis Presley (wise man say only fools rush in, but I can't help falling in love with you)... Passando por todos os gêneros da moda, do sertanejo ao forró... indo até Nelly com "Just a Dream"... é sempre a mesma coisa que inspira todas as letras - eu repito o que disse no início do post! - é o amor. A busca pelo amor, o amor frustrado, o amor não correspondido, a decepção amorosa... e nem vou discutir aqui se era AMOR, paixão, fogo de palha, teimosia, sentimento de posse ou retardo mental! O ponto nodal é o sofrimento decorrente de um relacionamento com outra pessoa que não correspondeu às nossas expectativas.

Sabem o que tem acontecido?

A "Síndrome do Peru de Natal - SPN". É um transtorno, até onde eu tenho percebido, comum às pessoas - muitas delas! -  mundo maluco afora. O sintoma básico é sofrer antecipada e desesperadamente pela dor que você imagina que o outro vai lhe causar. Ou seja, você sofre garantido 1 vez! Daí, se não acontecer nada demais, você não sofre novamente, maaaas se o que você "previu" se confirmar, aí você sofre a segunda vez inteiramente grátis! Negócio da China, hein?!

Acho que a SPN tem acometido tantas pessoas assim, quase que um surto epidêmico nos dias de hoje, pelo mesmo motivo que "cachorro mordido de cobra tem medo de pau". É basicamente aquilo de esperar o pior possível, de modo que qualquer coisa diferente daquilo vai ser lucro e você vai se sentir com esperança de que ESSA tentativa funcione (até que enfim, pelo menos uma!). Só que o problema com a SPN é que não contente em "esperar" o pior resultado, a pessoa já sofre como se fosse uma coisa real! Negocinho mais maluco! Hã?



Alguém vai dizer que não faz sentido? Que não se aplica a você ou alguém que você conhece num determinado momento? Quem não já quebrou a cara e agora  acha que virou "gato escaldado"? O raciocínio é assim: resultado provável é o fracasso, a possibilidade é o êxito. É assim que os cérebros estão sendo adestrados a processar...  Quando o correto seria o êxito ser o provável e o fracasso ser a possibilidade. É triste, meu povo. É deprimente.

As pessoas não se envolvem quase nunca em relacionamentos para fazerem com que funcione, elas já entram no espírito de "vamos ver no que dá"... isso, minha gente, é SPN em ação. E não estou falando do bando de gente que vai CASAR e diz com a maior cara lavada que "se não ser certo separa", tô falando do que você transmite de sentimento pra si mesmo, não do que você diz pros outros pra parecer que não está nem aí, que é forte e que vai ficar bem no matter what

A SPN é resultado da banalização da cachorrice, da calhordice, da filha-da-mãezice, da descompromissalização dos relacionamentos. Duvidamos do outro e pior: de nós mesmos! Tudo virou banal... então está todo mundo traumatizado. "Já que preciso do amor como quem precisa de uma droga, vou me jogar nessa sabendo que é isso mesmo: uma droga. E que eu vou me ferrar porque alguém vai agir de forma grotescamente idiota nessa história (pode ser que seja eu!)... mas como eu já sei disso... não vai doer tanto quando acontecer. Estou preparado!"

Primeiro: Mentira. Ninguém consegue se preparar pra sofrer por idiotices aleatórias, até porque a esperança é uma invariável. Acreditamos escondidos de nós mesmos... mas acreditamos - porque precisamos, queremos, merecemos acreditar!

Segundo: JÁ ESTÁ DOENDO, MANÉ! Pensar assim, viver assim, se envolver com alguém nessas bases já dói estrondosamente!!! Acorda! Hello-ooowww!!!??? Jeez!


Sabem outro problema?

O "meuzismo". E é preciso que fique muito claro que esta é uma falha humana boba, inútil e sem solução.

"Meuzismo"consiste na atribuição indevida de pronomes possessivos. Tuuuuuuudo bem que se formos radicalizar, estourar a boca do balão... então praticamente será decretada a abolição desses pronomes. Isso é pouco prático e nada simpático à sociedade. Estou falando do ponto de vista de que "caixão não é baú". Eu, particularmente, não sou adepta da religião egípicia (tipo: vamos enterrar todos os bens e até os escravos do Faraó com ele e nhem nhem nhem... francamente... nem na moedinha de Caronte eu boto fé - obviamente - de que chegue do lado de lá, onde não existe nem Caronte, nem barca nem rio...).

Isto esclarecido, vamos separar nossos "pertences" em 4 categorias relativamente amplas: a) nossa bagagem emocional; b) nossas pessoas; c) nossos bens materiais, e d) nosso eu. Agora vamos tentar entender que o "meuzismo" decorre da "coisificação" destas categorias, como se todas elas pudessem ser igualmente possuídas e carregadas. Ledo engano. Lerdo engano. Largo engano...

Ok! Vamos raciocinar...

Na melhor das hipóteses. Na melhor hipótese possível, existem leis do ordenamento jurídico positivado que lhe garantem, por vezes a posse, por vezes o domínio (propriedade), ou até ambos, posse e domínio, de um bem corpóreo ou de um bem que a ele se assemelhe ou equipare pela possibilidade de atribuição de valor pecuniário - como direitos autorais, patentes, propriedade industrial.

Algumas vezes, em determinados lugares, há quem se ache com respaldo da "lei" para se imiscuir na titularidade de outras pessoas, como se elas fossem coisas (!), como se fossem bens corpóreos. Estou falando de "determinados lugares" e de respaldo da lei porque todos nós nos atribuímos a titularidade das outras pessoas, mas sem a vantagem e a petulância da proteção do Estado para este nosso delírio!

Além do direito positivo, do direito estabelecido em normas escritas, existe o direito consuetudinário, o direito natural, o que se traduziria num "é de praxe que seja assim..." e tudo isso pra organizar a PROPRIEDADE sobre as COISAS na sociedade.

Mas vamos voltar à nossa classificação porque não é o critério legal ou social que eu pretendo tomar por parâmetro nesta reflexão. O meu critério é o seguinte: "o que você tem que é tão seu, mas tão seu, que ninguém nem nada poderia subtraí-lo de você sem a sua anuência?'

Não tenha a ousadia nem a estupidez de tentar responder rapidamente. Vamos por eliminação... e pode se remexer e se sentir incomodado porque, de fato, caixão não é baú e este é um ótimo referencial para que comecemos a tentar responder esta questão.

Partindo do pressuposto de que a "vida" não acaba com a "morte", mas apenas esta existência na Terra sim, e partindo do pressuposto de que esta não é a sua primeira existência... uma segunda dica seria pensar: se existem coisas que são minhas e que eu levo, isto é, minha "bagagem espiritual", por certo existem coisas que são minhas e que eu trouxe?

Encaremos a existência como se fôssemos todos agentes da PF numa missão... ou da CIA... da ABIN... sei lá! Depende do seu nível de glamour! Pois bem! Estamos sempre voltando pra nossa "vida normal", nossa casa, nossos amigos, para o escritório e recebendo novas missões. Cada missão designada é uma existência... uma "encarnação". Nascemos com os apetrechos necessários a cumprí-la da melhor forma possível - daí as deficiências e privilégios - mas podemos perfeitamente nos desviar, desertar, virar agentes duplos, trair o órgão, whatever!  Uma vez em "campo", podemos manter, restringir ou cortar o contato com o apoio da missão... são nossas escolhas! Um belo dia retornamos pra "casa". É quando "passamos a régua". Vemos o tamanhos da cagad@ que fizemos ou o se conseguimos ou não cumprir nossos objetivos e o porquê. Dalí a algum tempo, recuperados e pacificados conosco, recebemos uma nova missão condizente com o agente que provamos ser e, novamente, recebemos o preparo, o treinamento e toda a parafernália necessários ao nosso êxito... daí porque nem sempre voltamos rapidamente nas novas missões: as vezes montar toda a estratégia e nos preparar para que nos sintamos seguros é demorado (o que não garantirá nosso sucesso, que depende sempre de nós mesmos). A cada um o frio conforme o cobertor. Fato! E isso se repete até que nos provemos bons agentes o suficientes pra sermos transferidos pro setor burocrático... porque alma não fica velha nunca... e em "casa" todos somos despidos do corpo físico (que é nosso uniforme de trabalho). Quando somos transferidos para o burocrático, deixamos de sair em missões a não ser que pidamos (como um caso muito conhecido de agente muito famoso chamado Jesus 007 Cristo)... e nos ocupamos de ajudar Abba nos planos e nas missões dos milhões de agentes que ainda estão em campo, passando pelo que conhecemos tão bem. Os critérios de "promoção" são objetivos...

Que tal minha metáfora?

Mas voltando... O que nosso espírito leva e traz de cada missão? Qual a bagagem espiritual do homem? Essa pergunta tem relevância aqui, embora rendesse sozinha um post, porque é a resposta pra a pergunta que eu fiz anteriormente. Só o que não pode ser tirado do homem, ou ao menos não facilmente, seria sua bagagem, seria realmente seu.

O nosso problema é a COISIFICAÇÃO. Meu cumpade... presta atenção aqui! Se os seus bens materiais podem ser tirados de você até mesmo em vida, imagine as pessoas!!!

O seu corpo ou partes dele podem ser tirados de você independentemente da sua vontade, para o seu próprio bem ou para o seu mal. A sua dignidade pode ser testada ao ponto em que seja preciso que você admita que não sabe ao certo se a tinha e perdeu, ou se nunca sequer foi digno!!!... Basta olhar o que o nazismo fez das pessoas durante o Holocausto, o que a guerra faz até hoje das pessoas! O bom senso, a noção de justiça, a fidelidade, a confiança... realmente nos pertencem? Não podemos ser demovidos de todas essas noções com maior ou menor difilcudade? São realmente nossos estes valores, noções e sentimentos? Será?!


"A propósito de valores: guardamos o dinheiro numa caixa forte e os sonhos.... numa gaveta." 
Mirco Stefanon


E continuamos a coisificar. Meu pai, minha mãe, meus filhos, meus primos, meus avós, meu marido, minha esposa, minha noiva, meu noivo, minha namorada, meu namorado. E colocamos alianças, e colares com pingentes e palavras e agora temos o status do Facebook para alterar! Queremos coisificar e mais: queremos ser coisificados. Esperamos ansiosamente isso. É quase uma prova de amor... tipo... se você não quer me reivindicar ao mundo é porque talvez não me ame direito! Talvez nem me ame! Queremos ser a coisa de alguém. Queremos, talvez, passar a administração de nossa vida, de nossa felicidade pra outras mãos... ser Seu ao invés de ser Eu.



Ooouuu!!! E eu não estou criticando, hein?! Estou me incluindo no bolo. Yes, we can! We thingness people.

Um dia eu perguntei a uma pessoa que foi muito importante pra mim se a vida dela era "invivível" sem mim. Minha resposta? "Não. A vida não é invivível sem ninguém." Urgh!!! =P Talvez essa pessoa não lembre (É o que dizem: Quem bate esquece, mas quem apanha, não.), mas eu sim, e era verdade. Só que hoje o problema é que essa ideia é muito anti-romântica... de que a vida não é invivível sem ninguém, sabem? E continuamos com isso: meu grande amor, minha grande paixão, minha grande desilusão, meu pior momento, meu, minha, meus, minhas... Acho que quando coisificamos as pessoas e as situações desse modo é pra nos convencermos de que tudo o que vivemos é único, assim, se sofrermos, só vai ser só dessa vez. Mas, quando aquilo tudo passa e nos deparamos com o mesmo dilema novamente podemos fazer tudo de novo, e então podemos nos reconvencer de que agooooooora sim o sofrimento que estamos passando não vai se repetir.

Estamos nos pregando um truque e ao mesmo tempo estamos sendo realistas. O truque é acreditar que o sofrimento não vai se repetir porque é devido à peculiaridade e unicidade da situação. Só que o engraçado é não nos darmos conta de que cada situação é, de fato, única. O sofrimento pode se repetir, a situação não. O sofrimento não se deve à situação, eu acho... mas ao peso de ter, novamente, que enfrentar a frustração de uma escolha mal feita ou de uma ausência de bem querer.

Modificamos as pessoas com as quais tentamos nos relacionar, mas continuamos os mesmos. De repente seria o caso de pararmos e pensarmos: quando ao longo de muitas tentativas a coisa funciona COM OS OUTROS é porque eles finalmente encontraram alguém ideal ou é porque eles finalmente se tornaram alguém ideal? Será que o problema está em todo mundo que não dá certo com você? Ou em você que não dá certo consigo mesmo? Quem, senão você mesma, arrasta o temor do sofrimento de um lado pro outro? Quando, at last, você o deixará pra trás e se permitirá um pouco de alívio? De leveza e alegria?

O ser humano é tão escolado nisso de se auto-ludibriar que até mente para si a cada relação em que se envolve e dá um jeito de que fique absolutamente claro que aquilo que ele está sentindo ou vivendo ali nunca foi sentido ou vivido antes... Ele se convence (!), independentemente de também conseguir convencer a pessoa com a qual se relaciona, de que pelo menos em alguns aspectos - senão em todos - nunca sentiu aquilo que está sentindo por mais ninguém!!! E nem sempre é verdade. Ou até é em parte, mas não é assim porque ele quis isso! É porque não deu, não estava maduro, a outra pessoa não deu chance... sei lá! Não rolou, mermão! Mas o sujeito age como se ele tivesse "se guardando" para o momento e a pessoa de agora, quando a verdade é que sempre esteve buscando sentir tudo e o máximo possível! É assim que nós, pessoas, somos! Queremos que dê certo...

Por que ele - ser humano - faz isso? Se enganar assim...?

É como se ele se sentisse adúltero, infiel, por ter amado ou se apaixonado antes por outro que não o seu novo amor! É como se tudo o que ele quis taaanto que fosse verdadeiro com alguém ANTES, agora lhe denegrisse, lhe desabonasse. Não sei. Quer assegurar à nova eleita de que com ela é diferente para que em troca ela possa ser realmente diferente... mas não é assim que a banda toca.

Então, gente, quando as coisas começam a funcionar contra todos os odds... e duas criaturas estão apaixonadas, rindo à toa, pensando uma na outra o tempo todo! Quando o mal-estar pela energia que gastamos com os quase-amores errados é superado, sabe o que o casal vai fazer com "a teoria do seja inteiro, se ame, blá blá blá"?

Pois é! Eu nem sei se o que eles fariam com essa teoria poderia ser escrito e divulgado em um blog público! hahahahahahahahahahahha

Bom, para os românticos inveterados eu digo que o sentimento real que sentimos pelas pessoas - o que não se confunde com a pessoa em si - este sim, se legítimo e puro, realmente nos pertence. O amor, por exemplo, de uma mãe com um filho, ou mesmo entre um homem e uma mulher (quer fiquem juntos quer não), estes pertencem aos seus portadores.

Cabe distinguirmos dentre os sentimentos que carregamos em nossas bagagens, quais deles são reais, ou quais estão disfarçados... viajando com o bilhete falsificado comprado em cambista. Quem é sentimento de posse fantasiado de amor? Quem é rejeição mal curada vestida de mágoa? Quem é luxúria maquiada de paixão? Quem é interesse que se passa por amizade? Quem é conveniência vestido de companheirismo?

Porque se queremos levar na mala coisas inúteis... beleza! Direito nosso. Mas é melhor que saibamos exatamente aquilo que estamos carregando e que, de tempos em tempos, reflitamos se não é chegada a hora de jogar fora o peso desnecessário.

Sou de uma geração (nasci em 83) que olha para os pais, pelo menos boooooa parte dela, com um quê de inveja. Existem um milhão de explicações, sabemos, mas no final das contas temos um problema que é o seguinte: estamos beirando os 30 anos, alguns de nós já têm 30 anos ou mais, e nosso coração está quieto.

Tão prestando atenção?!!! Eu não disse INQUIETO. Eu disse QUIETO mesmo!!!

Namoramos, muitos de nós começamos cedo. Tivemos, muitos de nós, namoros longos e sérios (!). Normalmente também já aproveitamos a vida que dê pro gasto... E é isso!

As decepções que tivemos, as coisas que vimos acontecer conosco e com os outros, o que vemos na rua, o ritmo de trabalho, a velocidade com que o tempo passa.

Não sei bem ao certo quando perdemos a pressa.

Quando nos alistamos ao Partido das Pessoas Para as Quais é Melhor Deixar Quieto - PPMDQ...

Não é que "tanto faz", mas uma hora, absolutamente contra a nossa vontade, apesar de toda a falta que sentimos de amar, amar, amar, amar e sermos amados... e até de SOFRER... descobrimos que não precisamos disso. Até queremos... mas percebemos que as paixonites e os amorzinhos não são o tipo de coisa que esbarram na pessoa o tempo todo e existem outras coisas às quais dedicar nosso tempo e energia. Coisas que nos dão retorno proporcional ao nosso empenho. Que dependem de nós. Só de nós.

Descobrimos, não sei ao certo em que momento, que realmente dá pra aprender com os erros cometidos no passado... POR INCRÍVEL QUE PAREÇA!!!

(Todos pasmos? Dá, não é?)

Na época dos nossos pais não era assim. As coisas "eventualmente davam certo antes"! Táááááá... sabemos que os resultados profissionais vinham antes,  que a tecnologia, a influência da familia e a educação eram outras! Sabemos que havia restrição espacial e globalização era novidade, whatever!!! Em que ponto as pessoas se tornaram tão exigentes, paranóicas, adúlteras e tolerantes, fiéis e intolerantes, o que houve que tá todo mundo de saco cheio? E mais: Por que o mundo, que até é um lugar legal, anda tão mal frequentado? Urgh!

Tantas amigas e amigos que nem tentam mais tapar a panela com uma escumadeira ou com um espremedor de limão!!! Pra quê, meu Deus? What's the point? Melhor batucar na panela com a escumadeira e fazer uma caipiroska. Pronto. Welcome to the new century! Ninguém faz gambiarra hoje em dia pra tampar panela com "qualquer coisa aê". Deu? Bem! Não deu? Amém...

Então, dia dos namorados como o que passou agora esse mês é uma coisa interessante. Uma amiga minha disse que é uma briga épica entre casais e solteiros. Os casais enfrentam filas em restaurantes e quebram a cabeça com presentes pra mostrar que namorar é muito massa! Os solteiros inventam super baladas exclusivas para solteiros pra mostrar que não... que bom mesmo é ser solteiro! Essa minha amiga disse que na opinião dela, melhor que um e que outro era a cama e a casa dela e foi dormir. hahahahahahahahaha

- Algumas pessoas levam numa boa.
- Outras sentem-se privilegiadas por estarem simplesmente "NÃO-SÓS"...
- Outros passam a tristeza dos que se perguntam: "o que diacho a gente tá fazendo junto?" (são os casais que na verdade são "duplas" de duas pessoas juntas que não conseguem ser "não-sós" uma com a outra...).
 - E há os que, realmente, resolvem lembrar nesse dia que "não é bom que o homem fique só"... e depois que lembram, tratam de buscar desesperadamente uma forma de esquecer com urgência!

Somos um bicho complicado... o bicho gente.

O que eu acho é que, sendo honesta, ninguém que pudesse sentir, ou melhor, deixar de sentir o buraco, o vazio causado pela ausência de um amor/alguém, optaria por ficar só. Aquele que disser isso ou está mentindo, ou não imagina do que está falando. É como Legião Urbana canta "é só você que tem a cura do meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi". Eu chamo a esta "cura" de Amor... e a este "você"  de amor.

Dessa existência não levamos quaisquer bens materiais. Não levamos nem mesmo o nosso corpo... Quiçá as pessoas! Que nem sequer podemos, necessariamente, manter ao nosso lado durante a jornada. Então, para tentar negar nossa óbvia impotência saímos coisificando tudo ao nosso redor.. quando o melhor a fazer seria, talvez, coletar e investir nas nossas emoções e lembranças mais verdadeiras.

"We make a living by what we get; we make a life by what we give."
Winston Churchill

Se fizermos isso, teremos um jardim fecundo o suficiente para que germine um grão de semente trazido pelo ar que se aloje, um dia, em nossos corações.

Eu sempre digo (como afiliada que sou do Partido das Pessoas Para as Quais é Melhor Deixar Quieto - PPMDQ) que nos resta fazer o que depende de nós e esperar que Abba providencie para que as outras coisas aconteçam, ao menos até o ponto em que passem também elas a dependerem de nós, nem que seja em parte.

Se no grande plano traçado para a nossa vida (aquele que é tipo tão grande que é como se a gente estivesse em pé no estacionamento de um hipermercado e ele forrasse todo o chão e só conseguíssemos ver um pedacinho)... com tantas variações, estão encontros especiais (especialmente difíceis e especialmente fantásticos), cabe a Abba orquestrar para que estes encontros ocorram, e daí em diante veremos! Eis a importância de cultivar nossas almas. 

"A morte não é a maior perda na vida. A maior perda é o que morre dentro de nós enquanto ainda estamos vivos."
Francis Bacon

Então, pela última vez: acho as teorias sobre o amor e os relacionamentos muitos pertinentes, embasadas e coerentes, mas elas se aplicam perfeitamente bem AOS QUE NÃO AMAM!!!

Quem ama tá ligando titica de galinha pra isso! Quer é let it flow! Sabem? "Vaaai que agora vai"? hahahahahahaha Se a pessoa consegue ultrapassar suas barreiras de proteção e se entregar será que irá dar uma frenada abrupta e dizer: "Ooopa! Mas eu sou um ser inteiro antes de mais nada!!! Calma aê!"???? Me poupe, né?

Afe! Maior sufoco pra conseguir ultrapassar esse bando de barreiras - que estão devidamente incluídas em várias teorias psiquiátricas e terapêuticas sobre o amor como mecanismos de defesa e sabotagem aos relacionamentos - que tudo o que se quer depois disso é "tchau e bença!", "partir pro abraço", "chutar o balde"!  Se o negócio for fulminante e num tiver nem barreira nem nada? Melhor ainda, rapá!!! Show de bola! Demorou! Quem se importa, a esta altura, com estratégias para dominar o mundo? O que é isso? Regra pra jogar War?

E diante de tudo isso, sabendo que "não é bom que o homem fique só", e face ao contagiante sucesso que tem feito o clipe fofo que a Vivo gravou homenageando os Eduardos e Mônicas mundo afora (http://www.youtube.com/watch?v=gJkThB_pxpw), a todos os que têm tudo pra não dar certo - e ainda não deram! - MAS QUE ESTÃO TENTANDO, na contramão das teorias, o que mais eu poderia dizer senão:

QUEM IRÁ DIZER QUE EXISTE RAZÃO NAS COISAS FEITAS PELO CORAÇÃO?
E QUEM IRÁ DIZER QUE NÃO EXISTE RAZÃO?
(Eduardo e Mônica - Renato Russo/Legião Urbana)




"Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura." 
Friedrich Wilhelm Nietzsche






Posts escritos sob influência da leitura do livro "Uma nova visão do amor" de Flávio Gikovate:

1. O deserto, a morte do amor, a confusão que as pessoas fazem e o que diz Gikovate.

2. Elvis made me cry. Elvis made me smile.
3. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena (Fernando Pessoa).

4. Terapia pro psiquiatra e sossego pro Amor.



sexta-feira, 10 de junho de 2011

O "interior do exterior do interior" - de CÁ PRA LÁ e de LÁ PRA CÁ...



Oi gente...

Depois que assumi o papel que eu e blog temos na existência um do outro e na daqueles que dividem comigo o que é isso de aprender a se colocar em palavras... acho que esta foi uma das minhas maiores ausências, se não a maior aqui... sem escrever.

Fui "atropelada" pelo transporte da vida. Não sei se é um bonde ou um trem bala. Só sei que me pegou de jeito.

Precisei parar. Parar e analisar. E degustar... Deglutir cada coisa. É como diz Ortega y Gasset: "EU SOU EU E MINHAS CIRCUNSTÂNCIAS". - Cada uma delas.

Fiquei surpresa e indignada. A indignação dos impotentes. Vi como não tenho controle sobre mim. Minha pressão oscila, meu estômago dói. Estão me dizendo: "Duda, você está está estressada e ansiosa". Puuutz! Larguem de ser idiotas! Eu sei disso! Sou EU quem estou estressada e ansiosa... pior é estressada, ansiosa, gelada, fraca e com dor de estômago!!! Mas somos assim. Indefesos perante nós mesmos, por mais que sejamos verdadeiros leões gigantes predadores da cidade de pedra diante do mundo... nada podemos contra nossas células, mitocôndrias e citoblastos!!! Nosso emocional e nossas confusões rule.

Mas a vontade de falar foi acumulando, acumulando, acumulando... e eu precisava escrever.

Voltei para este post.

Digo "voltei" porque comecei a escrevê-lo no dia 30 de maio! Só que ali não pude terminá-lo porque faltava alguma  coisa. E era algo fundamental!!! Eu ainda não sabia ali o que poderia ser, mas agora eu sei.

Vim terminar o que comecei como me é característico fazer - via de regra... mas talvez por isso não queira começar "certas" coisas de jeito nenhuuuum!!! - Absolutamente! Começou? Termine! O livro, o sanduíche, o suco, o filme, o namoro, o exercício, a discussão. Começou? Termine!

Agora sim. Agora eu compreendi. Como não vi antes??? É que não existem coincidências... não canso de repetir. Só que as vezes não estamos maduros para entender a ausência de coincidência até que estejamos prontos para compreender. É isso. Não sei se ficou confuso! hahahahahaha Ficou, né? Claro!!!

Coincidências não existem. O que acontece é que precisamos estar maduros para que seja retirado o véu que encobria determinada situação fazendo-a parecer aleatória.

Pois muito bem!

As vezes começo a escrever como alguém que decidiu velejar, mas, porque não sabia aonde ia, resolveu dirigir a ermo água a dentro.

Nunca sei, nesses dias, se irei me deparar com um navio pirata (seja o Pérola Negra ou o Pérola roxa de bolinha verde limão), sereias, monstros marinhos ou com pura quietude e mansidão. Se irei parar em uma ilha deserta, ou em uma ilha habitada... Não sei se irei dar de cara com um pôr do sol sensacional, ou se vai cair uma chuva torrencial. O que irá emergir das águas? As vezes são cristalinas, as vezes turvas... Não sei. Estou preparada pra qualquer coisa e escrevo, escrevo, escrevo... Sabendo que uma hora tudo se revelará. Sei que a minha bússola é o meu coração e que ela se move sob o crivo da aprovação da minha consciência (por piegas que pareça)...

Outras vezes, contudo, um post começa a tomar forma dentro da minha cabeça e, se eu estivesse em um veleiro, seria uma velejadora com uma missão! Daí por diante é até angustiante, porque até que eu consiga sentar e escrever, muitas coisas do meu dia a dia começam a se encaixar no que planejo escrever e me dá um pânico: "e se eu não conseguir lembrar de tudo na hora?" Aaah!!! Fico maluca porque sou muito exigente com minha caixola (conhecida como cérebro!) e AIIII dele se esquecer algo! hahahahahaha

Então... mês passado entrou em pauta na minha cabeça uma inquietude sobre "o porquê".



Por que escrevo? Quando fiz o blog, fiz porque achava que tinha que voltar a escrever, coisa que fazia bastante quando era mais nova e que tinha "largado mão". Escrevia principalmente poesias nos anos de 1998, 1999... Imaginem isso! Há mais de dez anos atrás. Só que não levei o projeto pra frente. Escrevi aqui e acolá e perdi a motivação. Escrever para mim não era bom o suficiente.

Em agosto de 2010, com mais de um ano morando sozinha em Brasília, decidi que seria terapêutico voltar a escrever no blog (que criei em meados de 2009 mais ou menos). Estava com várias coisas na cabeça, tinha inventado por um curto tempo de uma pesquisa sobre "gifted adults" por conta própria e pensei: "por que não?"

Tinha lido algo sobre os tipos de terapia há um tempo, os métodos para ser mais exata, e achei que a pessoa poderia aplicar a si mesmo o método cognitivo-comportamental. Estava meio deprê e pensei que escrever seria uma AUTO-terapia. Mas o que realmente fez a diferença foi o dia que uma pessoa com a qual eu me importava muito disse que ia viajar por 3 meses e que lhe faria um enorme bem se eu estivesse escrevendo porque ela gostaria muito de ler enquanto estivesse fora.

Voilá!

Como eu disse: eu não sou, nem  nunca fui um motivo bom o (ou) suficiente.

Me deixou meio espantada que alguém realmente quisesse e sentisse falta de "me ler"... mas eu iria escrever sim. Porque era minha terapia, porque (alguns me diziam) drenava o excesso de energia do meu centro de força (chácara) laríngeo - hehehehehe, porque faria diferença pra pelo menos 1 pessoa no mundo além de mim.

Muito bem! Muito bom! Só que recentemente aconteceu outra pessoa na minha vida. Ela se chama no mundo bloguístico (que eu participava ignorando o que realmente significava) de AnMi. Parece até meio nipônico, né? hahahahaha Gostei dela. Chegou chegando: "Gostei, é isso aí, viciei, que massa! Uhuuuu!!!" Sim, isso me assusta ainda. Fiquei olhando e pensando... "É comigo?"

Sabem como Abba é, né? Sempre ali... sempre enviando alguém pra me lembrar que ninguém, NINGUÉM, é esquecido por Ele. Eu tenho motivos pra continuar escrevendo...

Na verdade escrever não é difícil, difícil é  pixalizar, eternizar os pensamentos

Há apenas um grande funil que está com a parte larga voltada para mim e a fininha para o computador. Por aquele "canudinho" os pensamentos se espremem, se enfileiram e pulam de mim para o teclado e para a tela do computador num processo em que eu sou mera coadjuvante. O coração é a força propulsora e a consciência é o maestro regente que coordena a operação... Em algum lugar desse processo tão complicadamente simples, estou eu, no segundo plano, assistindo e segurando o queixo de tanto que fico de boca aberta - embasbacada - com o universo que existe dentro de mim, alheio ao meu conhecimento e à minha interferência.

Oscar Wilde disse: "I like talking. A lot of times I talk to myself, just to hear myself talk. Sometimes I am so clever that even I don't understand what I said." (Eu gosto de falar. Muitas vezes eu falo comigo mesmo apenas para me ouvir falar. Algumas vezes eu sou tão espero que nem eu entendo o que eu disse!")

O que me fez compreender muita coisa? E é essa muita coisa que vou dividir agora com vocês... O livro. O tal do "Trem Noturno pra Lisboa." Tenho que ler em doses homeopáticas de tanto que me faz pensar a cada avanço que faço...

Não consigo. Não consigo só ver um filme sem assistí-lo. Não consigo só ouvir uma música sem escutá-la. Não consigo só ler um texto sem debulhá-lo. Já pedi mil vezes que não me digam que apenas exista. A mim não me basta existir, preciso viver. A mim não me basta presenciar, preciso interagir, preciso degustar, preciso inalar... Meus sentidos assim exigem de mim e eu não esperaria menos deles. É a única maneira que temos de nos honrar pelo perfeito organismo que nos reveste e pelas nossa habilidades sensoriais e de respeitar aqueles que, menos afortunados, são despidos destes mesmos privilegios.

Aqueles, contudo, que os possuindo - aos sentidos - não fazem uso deles para sentir a vida. Esses envergonham a si mesmos, humilham os que têm menos sorte do que eles, e fazem tudo isso, na maior parte das vezes, por ignorância, e não por opção, de sorte que agridem, além dos sentidos, à inteligência, que nem deveria fazer parte dessa discussão. É tudo meio triste, meio ridículo, um tanto inócuo.

Sei que quem costuma "me ler" vai entender. 

Outra lição que aprendi no tal livro: Existem dois tipos de pessoas no mundo. Existem as pessoas que lêem. E existem as pessoas que não lêem. Genial!!! E o autor assume, que por mais que possa parecer bizarro... é assim e pronto. E eu assino embaixo e digo: e nos (os que lemos) sabemos reconhecer e receber como "irmão" aos que lêem como nós. É uma etiqueta que apita igual em sistema antifurto de loja no shopping. Quando encontramos essas pessoas o negócio dispara: peeeeein peeeeeein peeeeeeeeein peeeeeeeein peeeeeeeeein!

Alguns lêem mais que livros. Só que aí já é outra história...

Em verdade... tenho uma teoria que chamo "Teoria dos Icebergs" a respeito da qual escrevi brevemente no início do blog e digo uma coisa: não é "só" porque lemos que nos identificamos... Não é pela raça, credo ou nacionalidade que os homens se reconhecem, nem por qualquer critério visível aos olhos. Como disse Saint Exupèry: "somente com o coração pode-se ver corretamente". Está na alma e na mente a verdadeira tipologia que assemelha os homens. E eles simplesmente são capazes de reconhecer-se uns aos outros. É o que tenho sentido. Quantas "espécies" somos? Não poderia dizer. Mas imagino... imagino muitas coisas.

Mas voltando. Por que eu escrevo? Estou aqui agora para tentar compartilhar o que descobri. 

No livro do Trem Noturno pra Lisboa, há uns dias, o protagonista (Gregorius) estava lendo esse capítulo chamado "O interior do exterior do interior." Parei. Voltei. Li. Reli. Pensei. Tentei entender. Nada...

Puutz, Eduarda! Larga de ser burra! O interior... certo como é por dentro. Do exterior... o interior do exterior é como é por dentro pra quem tá vendo por fora. Ok! Do interior...  Mas e esse do interior de novo? Era o quê? hahahahahahaha É um ovo de páscoa recheado é? Que tem a parte do meio onde ficam os bombons e um recheio na própria banda? Non capisco!

Comecei a ler.

E digo outra vez como disse num post anterior. O título do capítulo eu teria escrito - talvez - de outro modo. Mas o conteúdo? E as conclusões? Se alguém me dissesse que era possível eu não acreditaria dessa forma: mas eu pensaria exatamente do mesmo modo sobre o mesmo assunto... Quem tiver estomâgo pra digerir, que digira.

O que o autor lido por Gregorius pensou é mais ou menos que se conseguirmos nos transportar para dentro de outra pessoa, pelo olhar dela que nos olha, e ver como ela nos vê, que pessoas diferentes de nós mesmos não seremos/veremos?!

O interior (do observador) do exterior (que nos observa) do interior (da GENTE!).

Percebi que eu escrevo por causa disso: pra que o quando o interior do exterior do interior passar uma imagem minha que é de minha responsabilidade, mas foge ao meu controle, eu possa revidar mostrando quem sou através do que penso e do que sinto... Seria então o exterior do interior do exterior do interior?

A primeira pessoa que precisava se conhecer era Eduarda. Mas quando ela começou a escrever e se deu conta de que precisava dividir aquilo com outras pessoas o bicho pegou!... Como?

O que incomoda é: o que as pessoas que não lhe conhecem vão pensar de você, no final das contas, está fora do seu alcance.

Ora, o que as pessoas que nos conhecem pensam de nós é difícil de prever. Muitas vezes, quando um ser humano se esforça para convencer alguém de que é "isso" ou "aquilo" é uma farsa. Não nos esforçamos para converncer niniguém de que somos o que somos. Esperamos que vejam por si mesmos porque imaginamos (embora saibamos que não é assim) que a pessoa enxergará sozinha, ao menos, se realmente 1) nos amar, 2) for digna de nós, 3) tiver bom senso.... etc. Quer dizer, se alguém não nos vê como somos, botamos a culpa no outro, e não em nós. Essa é a regra geral, imagino eu.

E descobri que faz sentido, pelo menos com o estranho que vai ver a imagem que iremos lhe passar... e independe do nosso controle o que ele vai perceber a partir do mero desenho de uma figura estranha. O que uma pessoa enxerga quando olha para um quadro? Depende! E quando olha pra uma outra pessoa? Depende! A culpa seria do quadro ou do observador? Depende...

Bom. Isso foi meio auto explicativo pra mim. Definitvamente eu não passo superficialmente uma imagem condizente com a minha alma. E eu precisava que as pessoas entendessem isso. Precisava mostrar quem eu era. A pergunta era: alguém teria interesse em ver?

Acho que mostrar é quando já conhecemos algo e dividimos. Revelar é quando partimos numa aventura pelo conhecimento e depois partilhamos.

Descobri que não posso mudar o que você vê quando olha pra mim, mas posso mudar o que você interioriza do que vê, se me conhecer.

A surpresa é que isso não importa tanto. O que faz com que olhemos a alma de alguém é a busca por nós mesmos. O ser humano é carente. Busca aceitação e identificação. É assim que somos.

Quando escrevo estou enviando a mensagem: "Ei, você! Você me entende? Você pensa como eu ou seria capaz de amar alguém que pensa assim?" 

Quando vocês me lêem e gostam daquilo que estão absorvendo estão enviando a mensagem: "Eu encontrei aqui identidade com quem eu sou. Não estou só, sou capaz de identificar pensamentos e sentimentos meus e de dissecá-los e compreendê-los de um modo que me faz sentir bem, me transmite uma coisa boa."



Percebi que escrevo sim porque falar alivia dores emocionais à la Shakespeare. Mas não é a solidão uma das mais difíceis dessas dores? E o orgulho e a vaidade? Escrevo para que eu possa tentar agir sobre o que você vê quando olha pra mim, mesmo que nunca me abarque sob seus olhos. Escrevo para desafiar o que não pode ser desafiado.

Mas até aí, são conclusões que eu tinha chegado num primeiro momento. O que eu tinha deixado passar era um detalhe muito importante com o qual temos que ser bem mais cuidadosos porque se não depende de nós como seremos vistos pelos outros, é de nossa total responsabilidade como os veremos.

E como fica o interior do exterior do interior DE LÁ PRA CÁ? Quando você vê no seu interior, pelo exterior, como é o interior de alguém?

O julgamento é uma responsabilidade gigantesca. Pobre do homem que carrega essa cruz. Há que diga que Deus julga as pessoas... eu, pessoalmente, já me afastei desse mal entendido. Primeiro porque seria contraproducente.... É aquela velha história, eu não tenho filhos, mas como escolher uns filhos em detrimento de outros para condená-los? Nenhum pai poderia se desimcubir de tal tarefa. E Deus é, antes de tudo, pai. Depois porque para julgar é preciso parcialidade, e Deus é talvez o único ser imparcial no Universo. 

Acredito que nós somos nossos próprios verdugos. Shakespeare disse que com a mesma severidade com que julgarmos, seremos um dia condenados, de modo que, somos nós ou não os nossos próprios juízes? Só que isto se aplica às Leis Eternas. Aqui, hoje e agora temos nossas leis materiais que precisam e devem ser obedecidas e aplicadas... mas não é disso que estou falando. Falo de julgar... não crimes, mas caráter. E repito: é uma responsabilidade gigantesca.

Olhamos uma pessoa, a maneira como se porta, como sorri, como se dirige aos outros, como olha, se sustenta o olhar, prestamos atenção em seu tom de voz, suas roupas, seu meio de transporte, se tivermos oportunidade perguntamos com o que trabalha, avaliamos seu grau cultural segundo nosso critério (se nos consideramos cultos, o ideal é que seja menos que nós para que nos sintamos seguros e superiores? caso contrário será um nerd esnobe? mas se for muito menos será comum, nem mesmo digno de nota? kkkkkk)... por um monte de critério superficial - menos ou mais, segundo tenhamos ou não contato ou somente analisemos visualmente - temos um parecer.

É exatamente o que fazem conosco! Só que somos nós fazendo aos outros. Não parece nada demais quando não somos nós o objeto de escrutínio, não é? 

Se pararmos para pensar... quase ninguém é lááá dentro o que passa por fora. Pior: quase ninguém é lá dentro uma pessoa só. Quem é capaz de responder com 100% de segurança que se conhece e é capaz de prever cada uma de suas reações? Quem? Quando dizemos "Eu sou assim mesmo" é algo do tipo... "eu não sou idiota desse jeito sempre, mas preciso saber que você me aceitaria mesmo que eu fosse, pra que eu tenha a calma e a tranquilidade de trabalhar meus defeitos sabendo que você me apóia". 

Por que nunca usamos as frases corretas? E porque não existe tradução simultânea para as erradas?

O que fez a ficha cair em mim para o fato de que não tão importante quanto o interior do exterior do interior de CÁ PRA LÁ é o interior do exterior do interior DE LÁ PRA CÁ foi um engano terrível que cometi recentemente.

Eu sofro desse mal: excesso de fé nas pessoas. É um mal que não é mau. Mas pode ser extremamente nocivo. As vezes o que vemos quando olhamos pra o lobo é a ovelha. Outras vezes, o que vemos ao olhar a ovelha é o lobo. Se não tivermos cuidado, podemos confundir o exterior do interior com o exterior simplesmente.... ou com o exterior do falso interior.

A imagem é assim: você na sala de embarque em um aeroporto... aquele monte de vidro espelhado pra tudo quanto é lado. Escolha o reflexo de uma pessoa e tente dizer por ali quem ela é.


Dizem que os olhos são a janela da alma. Isso me parece muito coerente quando estamos falando de uma alma que conhecemos. Mas pouquíssimas pessoas têm o talento de olhar uma alma estranha e compreendê-la. Essa não é a regra. Se você olha nos olhos de uma pessoa que você conhece, você pode ver sua alma... mas se olha nos olhos de um estranho, pode ver ali pistas. Não ouse dizer que o conhece nem que o compreende, porque não admitiria que um estranho olhasse em seus olhos e dissesse isso de você, admitiria?

Quando isso é possível, conhecer a alma de alguém pelos olhos, não importa há quanto tempo vocês foram apresentados nessa vida, saiba que não são estranhos. Há pessoas que conhecemos e há pessoas que apenas reencontramos na infinitude da existência.

Isso de conhecer ou não conhecer é complicado. Sócrates eternizou o dilema dizendo:

Conhece-te a ti mesmo.

Mas como? Já falei como somos imprevisíveis. E podemos mudar. Podemos NOS modificar. Sabe-se que ninguém muda ninguém... mas uns poucos, mais esclarecidos compreendem... nós podemos mudar a nós mesmos, seja por nossa causa, ou seja pelo outro.

Conhecer-se a si mesmo é ter consciência de nossa ignorância. 

Importante ainda compreender que o exterior que liga o interior da gente e o interior de quem nos vê é moeda, e como tal tem duas faces. Por nos ocultar nos protege ao mesmo passo que nos deturpa. Turva nossa alma para que não possam conhecer nossos segredos e fragilidades mais íntimos, mas dá-lhe uma aparência que em nada se assemelha à sua essência, roubando de nós quem somos diante do mundo.

É difícil encontrar no Universo algo inteiramente bom ou inteiramente ruim. Até o fato de ser difícil encontrar algo inteiramente bom ou ruim não é de todo mau, porque nos ensina a sermos melhores administradores. 

As dificuldades perdem metade da sua força de apenas passarmos a chamá-las oportunidades. E que poder as palavras têm! E que poder temos nós: que damos os nomes às palavras!!!

No final das contas, se é o interior de cá pra lá ou de lá pra cá.... ou se o exterior é o meu ou o seu, não importa tanto assim. O que realmente importa é que saibamos focar sempre no que vale a pena ser refletido, porquanto embora não tenhamos a escolha de vivermos ocultos, temos a liberdade de escolher as paisagens.

"As pessoas viajam para surpreender-se com as montanhas, os mares, os rios, as estrelas; mas passam por si mesmas sem maravilhar-se."
Santo Agostinho